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^dc143cA Rosa que Floresce do Sangue: Parte 2^000000

2.
^fa8072"Khras! Khras!"
Khras estava empoleirado sem muito equilbrio nos galhos das rvores, se esforando para amarrar as pontas de uma lona e 
formar uma barraca improvisada. Ele olhou para baixo para ver Senia acenando para ele, 
seu cabelo loiro balanando ao vento.
"Senia! O que est fazendo a fora?! Voc vai pegar uma queimadura. Volte para dentro!"
"Khras! Voc nem se lembra que hoje  o meu aniversrio?"
"O que acha que estou fazendo, Senia? Estou arrumando uma sombra para voc poder vir 
para fora aproveitar o ar fresco."
"Est demorando muuuito, Khras! No quer ficar perto de mim?"
Mulheres! s vezes ela pedia coisas demais, mas no podia fazer nada. 
Ele a amava mais do que a vida.
Khras queria que Senia pudesse andar livremente fora de casa, sentir o aroma das flores e desfrutar de um piquenique 
 beira do rio. Infelizmente, sua pele era sensvel demais  luz, e ela nunca podia 
ficar muito tempo ao ar livre. Seu cabelo, sua pele, tudo dela era de um branco alvssimo. 
Seu rosto ficava bem vermelho quando sua pele queimava ou quando ela ficava brava com ele. 
O estranho  que era assim que Khras achava Senia mais bonita.

Senia ria e mexia com as traves da barraca, correndo ao redor da rvore e provocando Khras. 
"Por favor, Senia, por favor! Quer parar de mexer com as traves?! 
Senia, assim eu vou cair!"
Senia torceu o nariz, e ignorou seus pedidos desesperados. Ela ento correu para o centro do 
jardim, onde o sol brilhava mais forte. Seu comportamento to despreocupado e impensado deixou 
Khras angustiado. Khras desceu rapidamente da rvore, e chegou ao cho bem 
a tempo de ver Senia desmaiando. Ele correu para junto dela enquanto 
tirava a prpria camisa, atirou-a sobre ela, ergueu-a em seus braos e correu para dentro de casa. 
Os olhos dela estavam bem fechados, como se a luz do sol doesse em suas plpebras.

Ela ainda estava bem agarrada aos ombros dele quando ele a deitou delicadamente no sof. 
Ele se sentiu culpado: devia ter dado ateno a ela, ainda mais que hoje era o aniversrio dela. 
Ele esperava que houvesse uma chance de evitar que o aniversrio fosse arruinado. 
"Senia? Senia, estamos dentro de casa. Pode abrir os olhos agora."
Ela abriu os olhos lentamente em resposta ao sussurro, e sorriu docemente para ele. 
Seus olhos, em lgrimas, ainda estavam injetados, por isso ele sabia que ela no enxergaria direito
por algum tempo. Ela tateou o pescoo dele, enquanto ele beijava sua testa, e ento ele tomou 
as mos dela entre as suas.
"Senia... Acho que estraguei seu aniversrio. Quero compensar. Por favor, me diga.
Tem algum pedido especial de aniversrio?"
"......"
"O que houve?"
"Oh, Khras... Voc no estragou meu aniversrio. Mas..."
"Mas o qu?"
"Agora eu posso pedir o que quiser, no posso?"
Sua voz estava alegre como sempre, e Khras ficou feliz em ouvi-la de novo. 
Ele segurou o mindinho dela com o seu.
"  claro, Senia.  uma promessa."
Senia fechou mais uma vez os olhos, por um instante, e disse:
"Khras, quero uma rosa que tenha florescido com as lgrimas da deusa."
"Vou pegar uma para voc, Senia. Eu prometo."
Khras nem pensou duas vezes para atender ao pedido. Senia prosseguiu.
"Vou lhe dar trs anos para encontrar minha rosa especial. Ela deve ser bem vermelha, e
florescer em um dia de chuva. Voc pode realizar meu desejo?"
"Farei isso por voc, Senia."

Dois anos mais tarde, a quinta rosa de Khras seria rejeitada. Ele ainda no
havia conseguido.

"Hahahaha!"
Beren comeou a rir alto depois de ouvir a histria de Khras. Ele conteve o riso por 
um instante, olhou para Khras com olhos incrdulos, e ento soltou 
uma viva gargalhada. Eles riram juntos por algum tempo com o ridculo da 
histria de Khras, e ento perceberam como deviam parecer ridculos, os dois escondidos 
em um buraco debaixo de uma carroa no meio do campo de batalha. Ento, eles riram juntos de novo, 
com o ridculo da guerra.

"Khras! Hahahaha!!! Ento, (ofegante) voc atendeu ao desejo dela? Ahaha!!
Khras parou de rir e baixou a cabea, desapontado.
"Os trs anos esto quase no fim, e o inverno est chegando. Ainda no fiz o desejo dela 
se tornar realidade."
"Oh... Ainda no?"
"Bem, pelo menos estou vivo. Quero voltar para casa, voltar a cultivar rosas."
Khras sorriu para Beren.
"Hahahaha! Bem, sinto muito. Mas acho que voc no vai poder atender ao pedido dela."
"B-Beren? O que--"
A espada perfurou seu estmago, e ele sentia o calor do prprio sangue. Ele achou 
que era como se o calor da vida o deixasse. Khras encarou Beren, estupefato. 
Por que ele estava fazendo isso?
Beren empurrou ainda mais a espada.
"Os nicos vencedores da guerra so os sobreviventes. Voc sabe disso. Desculpe, mas voc acaba de perder." 
Khras tossiu sangue, e olhou para Beren, esperando uma resposta. 
"Voc... Mas voc est usando o smbolo de Freya!"
Beren tirou um belssimo pingente dourado do casaco: o smbolo de Odin. Ele ento 
o devolveu ao bolso cuidadosamente, arrancou o smbolo de Freya de seu cinturo e o colocou 
em uma bolsa. Khras ficou pasmo de horror: Beren estava colecionando os smbolos de Freya de 
suas vtimas. At mesmo o cinto que Beren usava estava manchado com o sangue de 
suas vtimas.
"Todos vocs confiam tanto em mim quando uso essa coisinha no cinto.  fcil
demais!"
Khras segurou a espada que penetrava em seu estmago com a mo direita, tremendo, e tentou 
alcanar a garganta de Beren com a outra. Era em vo: sua firmeza se perdia junto com 
o sangue. Seu corpo estava ficando mais frio e pesado, e sua viso se 
embaava. A morte era iminente.
"Alguma vez, quando nos conhecemos, eu disse que adorava Freya? Sinto muito voc ter 
cometido o erro de adorar Freya. Sinto voc ter cometido o erro de amar uma 
garota to tola."
O cinismo de Beren no incomodava tanto, mas Khras queria saber por que Beren 
o havia trado. Beren entendeu a incredulidade no olhar de Khras, e sentiu um pouco de 
remorso. Ele havia trapaceado: o mnimo que podia fazer era contar a verdade antes que Khras morresse. 
"Voc pode pensar que tra voc. Pelo que vejo, nunca fomos amigos para 
comear. Vocs tomaram nossa terra. Depois, nos foraram a negar nosso deus Odin, 
e jurar lealdade a Freya. Falando com voc agora... Admito. Voc  diferente dos 
outros.  mais sincero. Mas... No vou arriscar. Tivemos uma ligao, 
voc e eu, mas... No fim das contas, estou do lado do meu deus."
Khras olhou para Beren, e de alguma forma parecia satisfeito. Beren segurou firme a espada por 
um instante,  desferiu-a para o lado, e tomou o smbolo divino de Khras. Ele o segurou 
suavemente nas mos. Depois, colocou-o no bolso. 
"Em nome de Odin." 
Seu sussurro sufocado foi abafado pelos troves. A gua da chuva se misturou com o sangue de Khras,
e se espalhou pelo cho. Em seus ltimos instantes, Khras pensou em Senia, 
e implorou  deusa para ajud-lo a cumprir sua promessa.

Senia estava sentada junto  janela, assistindo  chuva. No era uma chuva de vero comum, 
e a neblina cinza dos cus cobria as copas das rvores. Senia ficou assombrada ao olhar melhor 
os pingos de chuva que caam. Eram ptalas de rosas caindo do cu? 
Ela correu para fora. Ela no tinha notcias de Khras h meses, e estava esperando 
tanto que ele voltasse.
"Khras! Khras?!  voc?"
Ela correu freneticamente, percorrendo o horizonte com o olhar, em busca de algum sinal dele, e salpicando os ps no cho molhado. 
Uma ptala de rosa vermelha caiu aos seus ps. Ela olhou para cima, e viu milhares de 
belas ptalas, vermelhas como sangue, caindo suavemente. Seus braos se estenderam em direo 
ao cu. Uma nica ptala pousa em seu dedo, se derrete em uma gota vermelha que escorre 
por seu brao. Senia cai de joelhos, o rosto escondido nas mos, e chora. Khras se foi, 
e as lgrimas de Senia se misturam com as do cu. As ptalas de rosa giram ao seu redor, fazendo 
a garota de pele alva parecer uma bela rosa vermelha, florescendo solitria 
na chuva. 

*Esta  uma obra de fico; qualquer semelhana com personagens e eventos reais  mera coincidncia.
